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O cansaço de não saber esperar

  • Foto do escritor: espacostim
    espacostim
  • 8 de mai.
  • 2 min de leitura

Outro dia, me peguei pensando em uma cena da mitologia grega que continua inquietantemente atual. Quando Ulisses finalmente retorna a Ítaca, depois de dez anos, ele não revela imediatamente quem é. Espera e observa. Sustenta o silêncio antes de retomar seu lugar ao lado de Telêmaco e Penélope.

E talvez o mais difícil nessa história nem seja a travessia de Ulisses. Talvez seja a capacidade de Penélope de continuar acreditando, mesmo sem garantias. De permanecer inteira em meio à ausência, ao tempo e à incerteza.

Eu fico me perguntando quantos de nós, hoje, conseguiríamos suportar esse tipo de espera.

Vivemos em uma sociedade acelerada, em que tudo parece exigir resposta imediata. A produtividade virou medida de valor. O descanso, muitas vezes, vem acompanhado de culpa. E o silêncio já não é vivido como espaço de reflexão, mas como vazio a ser preenchido.

Recentemente, li que os afastamentos por burnout passaram de 823, em 2021, para 7.595, em 2025, segundo dados da Previdência Social. Um aumento alarmante que revela muito sobre a forma como temos vivido, trabalhado e nos relacionado com nós mesmos.

E eu me pergunto se o esgotamento que sentimos não nasce justamente dessa incapacidade de esperar. Esperar o tempo das coisas, do corpo, das emoções e até das próprias narrativas da vida.

Como você percebe isso no seu cotidiano?

De que maneira tem cuidado da sua saúde mental? E mais do que isso, como tem integrado corpo e mente em uma rotina que parece nunca desacelerar?

Talvez o maior desafio do nosso tempo seja não produzir mais, mas sim reaprender a sustentar o tempo, a presença e o vazio sem precisar anestesiar tudo imediatamente.

Tenho pensado muito sobre isso. Sobre a Sociedade do Cansaço, a Sociedade Paliativa e a crise da narração.

Porque talvez exista algo que estamos perdendo sem perceber. E talvez o silêncio esteja tentando nos contar exatamente isso.



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